terça-feira, 5 de agosto de 2014

Cronologia dos Holandeses no Brasil

Durante o século XVII os holandeses estiveram boa parte do tempo no Brasil. Vejamos os fatos mais importantes ligados a estas invasões:

1621 - termina a Trégua dos Doze Anos entre a Espanha e as Províncias Unidas.
1624 - invasão holandesa da Bahia através de esquadra do almirante Jacob Willekens.
1625 - os invasores são expulsos de Salvador por uma força luso-espanhola comandada por Dom Fradique de Toledo Osório.
1628 - esquadra do holandês Peter Heyn captura uma frota espanhola carregada de ouro e prata do México na baia de Matanzas em Cuba.
1630 - os holandeses invadem Pernambuco com uma esquadra de 67 navios do almirante Hendrik Lonck e das tropas do coronel Diederick van Waerdenburch.
1632 - com a deserção e ajuda de Domingos Fernandes Calabar os holandeses iniciam a conquista das localidades e capitanias vizinhas a Pernambuco.
1635 - tomada do Arraial do Bom Jesus pelos holandeses.
1637 - Maurício de Nassau chega ao Recife e começa a reorganizar o Brasil holandês.
1638 - Nassau tenta invadir Salvador mas é rechaçado.
1640 - início da Revolução Restauradora visando separar o trono português do espanhol, juntos como União Ibérica desde 1580.
1641 - Portugal e Holanda assinam um tratado de aliança mas a guerra no Brasil nunca foi suspensa.
1642 - a Cia. das Índias Ocidentais decide reduzir seus efetivos no Brasil.
1644 - Nassau é dispensado do cargo de governador do Brasil holandês e volta para a Europa onde descreve a situação da falta de recursos na conquista.
1645 - início da Restauração Pernambucana; batalhas dos Montes das Tabocas (03/08) e Casa Forte (17/08).
1646 - os holandeses são sitiados no Recife e nos fortes do litoral.
1648 - 1ª batalha dos Guararapes (19/04).
1649 - 2ª batalha dos Guararapes (18/02).
1652 - primeira guerra anglo-holandesa.
1653 - chega a Pernambuco grande esquadra portuguesa com tropas.
1654 - as tropas luso-brasileiras reconquistam o Recife obrigando aos holandeses a assinar a rendição em 26 de janeiro. 


FONTE: http://mauritsstadtblog.blogspot.com.br/2011/12/cronologia-dos-holandeses-no-brasil.html

domingo, 3 de agosto de 2014

QUEM FOI JOÃO SUASSUNA, COMO SE DEU A SUA MORTE E COMO ESTE FATO INFLUENCIOU A VIDA E A OBRA DO SEU FILHO ARIANO



Texto publicado em

 João Suassuna, pai de Ariano

                        João Suassuna, pai de Ariano

Diante da recente morte do escritor Ariano Suassuna, muito de sua vida foi trazida ao conhecimento de milhares de brasileiros. Entre os muitos aspectos da biografia deste paraibano que marcou a história do Nordeste, um dos principais pontos abordados foi a importância da figura de seu pai, João Suassuna, em sua vida.
Ariano Suassuna 1927 - 2014
        Ariano Suassuna 1927 – 2014
Em inúmeros textos foi comentado, normalmente de maneira bem básica, que João Suassuna havia sido governador da Paraíba e que ele foi assassinado no ano de 1930, em meio às repercussões ocasionadas pela morte de João Pessoa e os acontecimentos políticos daquele período tumultuado da história do Brasil. Mas ao observamos com mais detalhes a figura do pai do grande escritor, que morreu quando Ariano tinha apenas três anos de idade, descobrimos uma história muito intensa, interessante e trágica!
O BACHAREL SERTANEJO
Há dez anos, com a ajuda do amigo Sérgio Dantas, autor de três maravilhosos livros sobre o cangaço, eu dei início a uma inacabada pesquisa por quatro estados nordestinos sobre a vida e morte do cangaceiro paraibano Chico Pereira. Esta motivação vinha do fato de ser imputado a este cangaceiro e seu bando, em fevereiro de 1927, o assalto a fazenda Rajada, em Acari, na região do Seridó Potiguar. Na época esta fazenda pertencia a Joaquim Paulino de Medeiros, meu bisavô e durante grande parte da minha juventude escutei inúmeras vezes os relatos deste episódio através de vários parentes queridos.
No desenrolar das pesquisas vi que a história de Francisco Pereira Dantas, o verdadeiro nome de Chico Pereira, possuía ligações com a trajetória política de João Suassuna. Até mesmo a sua morte, ocorrida em 1928 na zona rural de Currais Novos, em um rumoroso caso de violência estatal, que manchou a biografia do então governador potiguar Juvenal Lamartine de Farias, também possui ligações com o pai de Ariano.
Mas de maneira totalmente independente do fato de João Suassuna ser pai do autor de “Auto da Compadecida”, busquei conhecer mais sobre sua vida.
João Suassuna no início de sua carreira
João Suassuna no início de sua carreira
Nascido João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, veio ao mundo em Catolé do Rocha, Paraíba, no dia 16 de janeiro de 1886. Anos depois estudou na conceituada e tradicional Faculdade de Direito de Recife, onde se bacharelou em 1909. O início de sua carreira como advogado foi em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Depois João Suassuna assumiu o posto de juiz nas cidades de Umbuzeiro e Campina Grande, ambas na Paraíba. Na sequência foi Procurador da Fazenda Nacional no seu estado natal.
Em 1 de dezembro de 1913, quando tinha 27 anos, casou com Rita de Cássia Vilar Suassuna, então com 17 anos, a quem chamava carinhosamente de Ritinha. Quando Castro Pinto esteve a frente do executivo paraibano (1912-1915), João Suassuna assumiu cargos de importância na máquina governamental.
Em 1917, após este período de governo, voltou a ser juiz, desta vez na cidade de Monteiro (PB). Foi nesta época que João Suassuna adquiriu uma propriedade chamada “Malhada da onça”, pra onde seguia ocasionalmente. A fazenda ficava em Desterro, local de nascimento de sua mulher, na época uma comunidade pertencente à cidade paraibana de Teixeira. Em 1919 deixou a magistratura e foi trabalhar no antigo Instituto Federal de Obras Contra as Secas – IFOCS. Foi neste período que ele adquiriu a Fazenda Acauã, na época localizada na zona rural de cidade de Sousa[1].
Fazenda Acauã na atualidade - Fonte - http://artenapedrapolida.blogspot.com.br/
Fazenda Acauã na atualidade – Fonte – http://artenapedrapolida.blogspot.com.br/
No começo da década de 1920, João Suassuna foi convidado pelo então governador Sólon de Lucena para assumir a Inspetoria do Tesouro do Estado, depois foi eleito deputado federal. Estava no exercício do mandato parlamentar no Rio de Janeiro, então Capital Federal, quando foi eleito “Presidente da Parahyba”, o que corresponde hoje ao cargo de governador.
O mandato de João Suassuna se caracterizou em grande parte por uma valorização das ações desenvolvidas pelos grandes latifundiários de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo do algodão e na pecuária. Estes “coronéis” atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupo de jagunços armados, da conivência com grupos de cangaceiros e outras ações.
Foi nesta época, no palácio do governo da Paraíba, que servia de residência oficial do chefe do executivo daquele estado, mais precisamente no dia 16 de junho de 1927, que nasceu um dos nove filhos do casal João e Rita. Foi batizado como Ariano.
João Pessoa
João Pessoa
João Suassuna entregou o cargo em 22 de outubro de 1928 a João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque e assumiu novamente uma das vagas de deputado federal pela Paraíba.
PROBLEMAS À VISTA!
João Pessoa discordava da forma como o grupo político que o elegera conduzia a política do seu estado e logo surgiram sérias divergências com os latifundiários. Um dos maiores embates estava na cobrança de taxas de exportação do algodão. Por esta época os coronéis exportavam o produto principalmente através do porto de Recife, provocando enormes perdas de divisas tributárias para a Paraíba. Procurando evitar esta sangria financeira e efetivamente cobrar os coronéis, João Pessoa implantou diversos postos de fiscalização nas fronteiras da Paraíba, irritando de tal forma estes caudilhos, que pejorativamente passaram a chamar o governador de “João Cancela”.
Os embates políticos entre o governador e os coronéis foram crescendo. A maior liderança entre estes poderosos foi sem dúvida o coronel José Pereira Lima. Verdadeiro imperador da região oeste da Paraíba, na área da fronteira com Pernambuco, tendo como base, a cidade de Princesa e este discordava com veemência das ações de João Pessoa. Do embate entre estes dois homens, resultou um dos maiores conflitos armados do Brasil Republicano.
Sentado vemos Marcolino Diniz, um dos líderes de Princesa e seus "cabras"
Sentado vemos Marcolino Diniz, um dos líderes de Princesa e seus “cabras”
A contenda teve início em 28 de fevereiro de 1930, quando ocorreu a invasão da cidade de Teixeira por parte da polícia paraibana, com o aprisionamento dos membros da conceituada família Dantas, ligada por profundos laços de parentescos e interesses ao coronel José Pereira. Apesar de governador João Pessoa não contar com o apoio do Palácio do Catete, onde o titular, Washington Luís não viabilizou uma efetiva ajuda às forças policiais paraibanas, o governador paraibano foi à luta.
Em meio aos conflitos da chamada “Guerra de Princesa”, no dia 26 de julho de 1930, um sábado, João Pessoa estava na Confeitaria Glória, em Recife, quando foi atingido por dois disparos desfechados pelo advogado paraibano João Duarte Dantas.
Da mesma família Dantas da região de Teixeira, consta que João Dantas após realizar uma viagem, encontrou seu escritório na capital paraibana violado. Entre os objetos roubados estavam cartas e poemas eróticos, além de fotografias sensuais trocados com a sua amante, a poetisa Anayde Beiriz. Estes materiais teriam sido roubados por membros da polícia paraibana, sob as ordens de João Pessoa, sendo publicados e colocados em locais públicos. Diante dessa exibição João Dantas foi à confeitaria vingar a sua privacidade violada[2].
João Duarte Dantas
                                                               João Duarte Dantas
Após o crime, João Pessoa se tornou um grande herói para o povo paraibano e seu assassinato foi o estopim da conhecida Revolução de 1930. Neste meio tempo cresceu descontroladamente o radicalismo na Paraíba e muito sangue correu[3].
A PARTIDA
Por ser João Suassuna casado com uma prima de João Dantas, ter sido eleito deputado federal com o apoio dos Dantas da cidade de Teixeira e do coronel José Pereira, o pai de Ariano ficou na mira dos familiares, amigos e correligionários do falecido João Pessoa.
No dia da morte do então governador paraibano na Confeitaria Gloria, João Suassuna se encontrava no Recife. Já sua família, inclusive o menino Ariano de três anos, estava na capital paraibana, em uma casa alugada ao Dr. Mariano Falcão, na Rua das Trincheiras. Diante do aumento da tensão na capital, Rita Suassuna e seus nove filhos vão se refugiar no 22º Batalhão de Caçadores, ou 22º BC, atual 15º Batalhão de Infantaria Motorizada. Em pouco tempo João Suassuna conseguiu apoio do rico empresário Frederico João Lundgren e consegue apoio do Exército para trazer sua família para uma casa mobiliada, pertencente a este empresário e localizada na cidade pernambucana de Paulista. Um dado interessante foi que a escolta da família Suassuna era comandada pelo tenente Agildo Barata[4].  
João Pessoa morto   
                                                        João Pessoa morto
O deputado João Suassuna recebeu a comunicação que havia sido denunciado como cúmplice no assassinato de João Pessoa e teria que ir ao Rio de Janeiro para se defender na Câmara dos Deputados. No Porto do Recife ele embarcou no paquete “Zelândia” e lá estava toda a sua família para as despedidas. Mesmo tendo naquela ocasião apenas três anos de idade, Ariano Vilar Suassuna sempre relatou ao longo de sua vida que jamais esqueceu a partida do seu pai para a Capital Federal. Pois aquela foi a última ocasião que o viu com vida. 
João Suassuna chegou a Capital Federal no dia 22 de outubro de 1930, se apresentou a Câmara Federal. Lá soube que tramitava na comissão de constituição e justiça um pedido do deputado estadual pernambucano João Paes de Carvalho Barros, para que fosse concedida uma licença para abrir uma investigação sobre a participação de Suassuna como cúmplice no assassinato de João Pessoa. Logo o pedido foi indeferido pelo presidente da casa, o deputado federal João Santos[5].
TEMPO DE REVOLTA
Não tarda e a convulsão política eclode. A conhecida Revolução de 1930 teve seu início em 03 de outubro de 1930, uma sexta feira, com movimentos sincronizados que foram levados a efeito no Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Paraíba.

João Suassuna (com papéis e na mão), tendo ao seu lado esquerdo Washington Luís no Porto de Cabedelo, Paraíba
João Suassuna (com papéis e na mão), tendo ao seu lado esquerdo Washington Luís no Porto de Cabedelo, ParaíbaMesmo diante desta situação, o deputado João Suassuna se coloca ao lado do presidente Washington Luís, junto com mais de uma centena de políticos. Todos se encontraram na tarde do dia 4 de outubro no Palácio da Guanabara, atual sede do Governo do Estado do Rio de Janeiro, onde morava o mandatário que em breve seria deposto[6].
Os dias seguiam com mais notícias preocupantes vindas da Paraíba e de Pernambuco. Na capital paraibana, na madrugada do dia 4 de outubro, poucas horas após o movimento ter-se iniciado, os revolucionários atacaram o 22º BC e ali morreu o general legalista Alberto Lavenère Wanderley, comandante da 7ª Região Militar. Já o 23º BC da cidade de Sousa, opôs resistência aos revolucionários. Logo em seguida sublevaram-se o 25º BC de Teresina, o 24º BC de São Luís e o 29º BC de Natal.
Revolucionário de 1930 - Fonte - ultimosegundo.ig.com.br
                        Revolucionário de 1930 – Fonte – ultimosegundo.ig.com.br
Em Recife o movimento encontrou uma resistência maior por parte das forças legalistas, que haviam se colocado de prontidão ao surgirem notícias da revolução. A vitória dos revolucionários, contudo, foi garantida pelo apoio popular à insurreição, tendo ocorrido, inclusive, distribuição de armas aos populares. Já na manhã do dia 5 de outubro, o movimento havia triunfado em Pernambuco, antes mesmo que os reforços provenientes da Paraíba chegassem a Recife. No dia seguinte a posição dos revoltosos se consolidou quando o presidente do estado, Estácio Coimbra, abandonou o governo[7].
TIRO MORTAL
Enquanto as notícias das sublevações e lutas pelo Brasil afora preocupavam os cariocas e o governo Washington Luís seguia para seus últimos dias, João Suassuna se dividia entre saber notícias de sua família e a atividade parlamentar.
Nesta época o deputado paraibano morava no quarto 63, do Novo Hotel Belo Horizonte, localizado na Rua Riachuelo, 130, no bairro de Botafogo.
Rua Riachuelo, em Botafogo, Rio de Janeiro - Fonte - www.rioquepassou.com.br
Rua Riachuelo, em Botafogo, Rio de Janeiro – Fonte – http://www.rioquepassou.com.br
Suassuna tinha o hábito de sempre descer ao “hall” principal para ler os jornais ainda pela manhã. Naquela quinta feira, 9 de outubro de 1930, ele estava nesta atividade quando apareceu uma visita. Era o farmacêutico paraibano Caio Gusmão, que há quatro meses residia no Rio. Eram cerca de oito e quarenta da manhã, quando o deputado decidiu seguir junto com seu visitante para o Palácio Tiradentes, sede da Câmara Federal. Estava vestido de paletó de casimira cinza e sapatos pretos[8].
Os dois caminharam um bom trecho pela Rua Riachuelo, quando Suassuna  olhou para o céu e comentou…
 - Parece que vai chover e vou buscar minha capa no hotel!
Deu meia volta, avançou alguns passos, mas nesse momento foi atingido por um disparo de arma de fogo. Suassuna tentou sacar um revólver “Colt” que conduzia, mas caiu no chão já morto por apenas aquele único tiro. O fato ocorreu na altura do número 111, próximo a esquina com a Rua dos Inválidos[9].
Caio Gusmão nada pode fazer, o corpo ficou em decúbito dorsal, com o revólver do falecido ao lado e a sua mão manchada de sangue[10].
1930-10-9 - CopyLogo encheu de gente. Rapidinho se espalhou a notícia sobre quem havia sofrido aquele atentado e o espanto dos transeuntes foi geral. Populares chamaram a “Assistência”, o SAMU da época, que logo chegou, mas nada puderam fazer em favor de João Suassuna.
Em pouco tempo o delegado do 12º Distrito Policial, o Dr. Eunápio Hardman Castello Branco, em companhia do comissário Antônio Pizarro de Morais, chegou ao local e depois vieram várias outras autoridades policiais. Das primeiras investigações descobriram que o assassino fugiu pela Rua Paula Matos, em direção ao Morro de Santa Tereza. Foi comentado aos policiais que o atirador possuía estatura mediana, vestia paletó branco, usava boné de casimira negra e calçava “tennis”[11].
Desde os primeiros momentos que os jornais cariocas apontavam que a razão do assassinato de João Suassuna era vingança pela morte de Joao Pessoa e mesmo com revoltas pipocando no país, os revolucionários de 1930 ainda não tinham conquistado a Capital Federal. Começou então a caçada ao assassino.
Inicialmente em uma vila, um policial encontrou um revólver de grosso calibre do tipo “buldogue” e uma pistola modelo “Liberty”. Além de toda a roupa utilizada pelo pistoleiro na hora do crime. Logo os investigadores perceberam pelas pistas deixadas que um cúmplice estava dando apoio ao matador.
1931-7-11(1) - CopyFosse pela importância de João Suassuna, ou por eficiência (ou uma soma destes dois fatores), o certo é que ás onze e meia da noite do dia 9 de outubro, policiais da 2ª Delegacia Auxiliar capturaram o assassino.
Este se chamava Miguel Alves de Souza e havia sido preso no grande sobrado que pertencia ao engenheiro Joaquim de Souza Leão, localizado na Rua São Clemente, 261, bairro de Botafogo, a poucos metros da tradicional Igreja e Colégio Santo Inácio. Assim foi preso Miguel Alves confessou o crime[12].
1930-10-10(2) - CopyEste era paraibano de Alagoa Grande, tinha 30 anos, havia chegado ao Rio pelo vapor “Itapuy” no dia 18 de julho de 1929, trabalhava como tratador de cavalos de cavalos e depois se tornou empregado do engenheiro Joaquim de Souza Leão.
Em uma entrevista concedida ao jornalista Ricardo Farias, publicada no caderno especial do jornal paraibano “A União”, edição de 12 de fevereiro de 2013, página 3, Ariano Suassuna comentou que o assassino de seu pai foi preso na casa do concunhado de João Pessoa[13].
Provavelmente os algozes de João Suassuna tinham a ideia que a polícia carioca jamais concluiria que na casa de gente tão graúda, como a Dr. Joaquim de Souza Leão, encontrariam um elemento que havia matado covardemente um homem pelas costas.
TRAMA ASSASSINA
1930-11-4No dia 10 de outubro, enquanto as autoridades “apertavam” Miguel para ele dar conta do assassinato, no Senado Federal, para onde seguiu o corpo de João Suassuna, ocorreram várias homenagens.
O ex-governador potiguar, então senador, José Augusto Bezerra de Medeiros, proferiu um interessante discurso sobre a vida do falecido político paraibano. Houve uma missa de corpo presente, várias autoridades estiveram no velório e foram colocadas muitas coroas de flores. João Suassuna foi enterrado no tumulo número 611, no cemitério São João Batista, em Botafogo. Mas nem sua mulher e nenhum de seus nove filhos estiveram presentes!

Enquanto isso na delegacia, Miguel Alves de Souza confessou que recebeu o apoio de outro paraibano chamado Antônio Granjeiro. Este era carteiro dos Correios e Telégrafos no Rio, lhe forneceu as armas e apoiou na sua fuga. Granjeiro foi logo preso[14].
Os dois comparsas entregaram então Octacílio de Lucena Montenegro, um funcionário do Tribunal de Contas, como a pessoa que procurou Granjeiro, lhe deu o dinheiro para a compra das armas do crime e a ordem para procurar alguém disposto a apertar o gatilho.
E quem era Octacílio de Lucena Montenegro?
Na entrevista concedida ao jornalista Ricardo Farias, do jornal paraibano “A União”, em fevereiro de 2013, Ariano Suassuna comentou que foi Octacílio quem intermediou junto a Granjeiro o assassinato de seu pai e que Octacílio era sobrinho do então coronel do Exército Aristarco Pessoa, irmão de João Pessoa[15].
Demorou mais alguns dias para prenderem Octacílio, mas ele foi finalmente detido na Tijuca. Para dirimir dúvidas, o investigador Silvio Terra fez uma acareação na 2ª Delegacia Auxiliar entre Octacílio, Granjeiro e Miguel Alves e para o policial ficou patente a participação de Octacílio. Mas este negou peremptoriamente sua participação.
Para os policiais Antônio Granjeiro, homem pobre e com numerosa família (tinha onze filhos), era considerado “doentio e muito sugestionável” e as preleções de Octacílio, que entre outras coisas dizia “-Será que não existe um paraibano que seja capaz de vingar a morte de João Pessoa?” surtiram efeito desejado. Granjeiro foi atrás de Miguel e o crime ocorreu.
1931-7-12(1) - CopyEntre outras acusações Granjeiro foi apontado como o homem que seguiu João Suassuna, conheceu sua rotina, comprou as duas armas usadas no crime e chegou a enviá-las para um armeiro quando foram detectadas defeitos nelas. Foi ele quem adquiriu a munição e no dia 7 de outubro, dois dias antes do crime, foi com Miguel Alves praticar tiro ao alvo nas margens da hoje superpovoada lagoa Rodrigo de Freitas, próximo ao Jóquei Clube do Rio.

Os três acusados, entre estes um carteiro e um tratador de animais, foram defendidos pelo ninguém menos que advogado Clovis Dunshee de Abranches, considerado um dos maiores criminalistas do Brasil na época e famoso pelo rumoroso caso Sylvia Seraphin Thibau[16].
Mas nesta época nem foi tão necessário a participação de um jurista tão renomado para defender estes homens, pois logo os revolucionários chegaram ao Rio de Janeiro, depuseram o presidente e assumiram o poder. No vácuo institucional, em meio às alegrias da vitória, os três homens responsáveis pela morte de João Suassuna foram soltos[17].
EM BUSCA DE JUSTIÇA
Foi Rita Suassuna que não deixou a morte de seu marido cair no esquecimento.
Tempos depois ela enviou uma carta extremamente intensa e emocionada ao então Presidente Getúlio Vargas e este mandou reabrir o caso. Em pouco tempo a morte de João Suassuna voltou às páginas dos periódicos cariocas.
Antônio Granjeiro, esposa e filhos em 1933
                          Antônio Granjeiro, esposa e filhos em 1933
Foram decretadas as prisões de Antônio Granjeiro e Miguel Alves. O primeiro foi preso em casa, no Rio. Já o segundo foi capturado na Paraíba e recambiado de navio para a Capital Federal[18].
Já os autos do processo simplesmente haviam sumido. Para completar o quadro os jornais noticiaram que novos depoimentos alteraram a situação de Octacílio de Lucena Montenegro e ele sequer prestou mais algum depoimento[19].
O promotor Francisco Belizário Velloso Rabello se preparou para o julgamento acusando os réus de “assassinato premeditado e sem direito a defesa”. Apoiando a promotoria, a pedido de Rita Suassuna, estava o advogado e ex-senador paraibano José Gaudêncio[20].
Já o advogado Clovis Dunshee de Abranches apresentou em favor dos réus a alegação que o crime por eles cometido “ocorreu em um período de intensa perturbação política devido à morte de João Pessoa” e isso gerou nos assassinos de João Suassuna “uma forte perturbação dos sentidos e da inteligência”[21].
O advogado Clovis Dunshee de Abranches
O advogado Clovis Dunshee de Abranches
Visando reforçar a defesa, o advogado Dunshee de Abranches conseguiu do “Centro Paraybano” no Rio de Janeiro, entidade de apoio aos paraibanos que viviam na Capital Federal, mas também servia de local de encontros políticos, uma carta em defesa dos réus. Produzida por Arthur Victor, presidente da instituição, a carta é uma longa peça acusatória contra João Suassuna, que mostra bem os processos da política radical daqueles tempos.
Entre outras coisas está descrito que Irineu José do Nascimento, padrasto de Miguel Alves e um 1º sargento reformado da polícia paraibana, havia sido “fuzilado por ordem de João Suassuna”, deixando sua mãe e três irmãos no desamparo. Sua família foi obrigada a fugir para Pernambuco, onde sofreram “sérias perseguições” por parte de Estácio Coimbra, então governador daquele estado.
Já Antônio Granjeiro nasceu em 1888, chegou ao Rio em 1912, entrou nos Correios e Telégrafos e foi transferido para Diamantina. Depois de retornar para o Rio começou a participar das atividades do “Centro Paraybano” e na época que iniciou os movimentos políticos contra o governo Washington Luís, o destemido Granjeiro era uma espécie de segurança e forte entusiasta pela causa liberal.
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A carta do presidente do “Centro Paraybano” menciona um episódio envolvendo Granjeiro, na época que o corpo de João Pessoa chegou para ser enterrado ao Rio de Janeiro. Quando da passagem do féretro por uma grande avenida, em meio à multidão, o carteiro gritou a pleno pulmões um “De joelhos!” e docilmente se ajoelhou diante do caixão do governador assassinado e seu gesto seguido por muitos presentes. Aparentemente isso o tornou uma figura de destaque do “Centro Paraybano”[22].
O julgamento começou ao meio dia de uma quarta feira, 18 de novembro de 1931, sob a presidência do juiz Nelson Hungria. O corpo de jurados era formado por sete homens e, apesar da atenção que aquele júri despertava entre os cariocas, os dois réus foram absolvidos por 5 a 2 e a promotoria recorreu[23].
NOVO JULGAMENTO
Em 8 de janeiro de 1933 houve um novo julgamento, desta vez sendo presidido pelo juiz Antônio Eugenio Magarinos Torres, tendo como promotor Rufino de Loy e novamente a frente da defesa o competente Dr. Clovis Dunshee de Abranches. Percebemos que, tal como o julgamento ocorrido em 1931, este segundo embate jurídico atraiu a atenção dos cariocas, sendo francamente noticiado na imprensa local.
O juiz Arthur Eugênio Magarinos Torres Filho. Nasceu em Campos (RJ) em 16 de janeiro de 1889 e faleceu em 8 de julho de 1960 - Fonte - http://autorescampistas.blogspot.com.br/
O juiz Arthur Eugênio Magarinos Torres Filho. Nasceu em Campos (RJ) em 16 de janeiro de 1889 e faleceu em 8 de julho de 1960 – Fonte – http://autorescampistas.blogspot.com.br/
O promotor Rufino fez uma longa acusação. Já o advogado de defesa, com enorme desenvoltura, busca destruir todos os argumentos da promotoria. Mostra com extrema eloquência a sofrida história de vida dos réus, apontando-os como “nordestinos pobres”. Trás para o tribunal o clima de revolta e instabilidade política de outubro de 1930, torna a ler a carta do “Centro Paraybano” e coloca os réus fora da “classe dos criminosos vulgares”. Cita vários juristas, psiquiatras e médicos para explicar o que as emoções políticas tinha haver com o assassinato de João Suassuna. Ele relembrou a epopeia dos “18 do Forte”, fazendo uma relação deste caso para justificar o clima emocional dos réus diante da morte de João Pessoa[24].
Dunshee de Abranches fez até mesmo considerações para o crime de regicídio. Em determinada hora, como era praxe no tribunal no Rio, houve a parada para o “chá”[25].
Depois do retorno e finalização dos debates, os jurados se recolheram para decidir o futuro dos réus. Em 30 minutos trouxeram para o juiz Magarinos Torres o “Veredictum”, condenando Miguel Aves de Souza há seis anos e Antônio Granjeiro a quatro anos de detenção[26].
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O julgamento teve outros desdobramentos. A família Pessoa, através do filho de João Pessoa, o jornalista Epitácio Pessoa Cavalcante de Albuquerque, abriu fogo com suas baterias jurídicas, processando o promotor Rufino de Loy. Entre outras coisas, consideradas um acinte pela família e ditas pelo promotor na tribuna, estava que “os réus eram conhecidos da família Pessoa”. Não sei o resultado deste processo.
A TROCA
Evidentemente que para Rita Suassuna o resultado do julgamento foi decepcionante, uma verdadeira lástima. Mas o pior foi a viúva de João Suassuna saber que Antônio Granjeiro passou pouco mais de um ano na cadeia e ainda conseguiu que os seus “serviços” pela causa liberal fossem “plenamente recompensados” com a sua liberdade. Mesmo condenado no tribunal, este verdadeiro “alpinista político”, que queria ascenção com o sangue alheio, foi reincorporado aos Correios e Telégrafos em junho de 1934 e voltou a sua primitiva função de carteiro no Rio de Janeiro.
Já o assassino Miguel Alves de Souza se perdeu no “oco do mundo”!
Na época a família Pessoa foi muito eficaz em criar em torno da morte de João Pessoa, toda uma condição de perpetuação da memória desta família na Paraíba. Começa que a atual denominação da capital paraibana é “João Pessoa”, fato único entre as capitais estaduais brasileiras. Depois basta fazer uma pequena pesquisa no Google e se percebe o alto número de ruas e logradouros com nomes e sobrenomes ligados a família do governador morto na Confeitaria Glória.
Foto provavelmente da década de 1960, onde mostr Rita Suassuna e seus filhos, da esquerda para direita, Ariano, Saulo, João, Lucas e Marcos
Foto provavelmente da década de 1960, onde mostra Rita Suassuna e seus filhos, da esquerda para direita, Ariano, Saulo, João, Lucas e Marcos – Fonte – Foto via Dorgival Macedo Junior
Já Rita Suassuna, depois de várias mudanças e provações, levou seus filhos para a cidade de Taperoá, no sertão paraibano. Ali, em uma região onde isso era a praxe, lutou para que seus cinco filhos homens jamais partissem para vingar a morte do pai. Entretanto a família de João Suassuna sempre perpetuou a memória de João Suassuna e isso se incorporou no jovem Ariano, mesmo com tão pouca idade na ocasião da morte de seu pai.
Mesmo sem saber mensurar o quanto o peso da morte de João Suassuna contribuiu para moldar o Ariano Suassuna escritor, eu creio que de certa maneira ele realizou a sua “vingança” através dos seus escritos.
Se a família Pessoa buscou se perpetuar em nomes de ruas e logradouros na Paraíba, certamente Ariano se imortalizou na mente e nos corações de milhões de brasileiros com as suas obras. O autor deste trabalho acredita que por muitas décadas e séculos no futuro, o nome e as obras de Ariano Suassuna serão obrigatórias para o entendimento do Nordeste.
Contudo eu tenho certeza que ele, Ariano Vilar Suassuna, trocaria tudo o que conseguiu com as letras para ter tido a oportunidade de ter visto seu pai conhecer seus filhos, ter acompanhado a sua vida e estar ao lado de João Suassuna no dia de sua morte. 
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NOTAS  
[1] Em 1945 o antigo IFOCS passou a se chamar Departamento Nacional de Obras Contras as Secas – DNOCS. A Fazenda Acauã é um importante patrimônio histórico rural paraibano. Com 300 anos de história, é a mais antiga fazenda de gado e algodão do Sertão da Paraíba. Está localizado a 409 quilômetros da capital, atualmente se localiza na zona rural da cidade de Aparecida. Ariano Suassuna morou no casarão, durante parte de sua infância, e se inspirou em Acauã para escrever suas obras. Ver http://sednemmendes.blogspot.com.br/2013/05/visitando-o-sitio-historico-da-fazenda.html
[2] Segundo material existente no site www.http//pb1.com.br , o vereador Fernando Milanez, sobrinho-neto de João Pessoa, afirmou que a versão de que o assassinato teria sido um crime passional é um “absurdo”, porque, segundo ele, João Pessoa nem conhecia João Duarte Dantas. Para a família de João Pessoa, o ex-presidente foi vítima de ambição e mentira, e a causa do assassinato teria sido política. Independente do motivo, João Dantas, junto ao seu cunhado, Augusto Caldas, que não havia participado do crime, foram presos na Casa de Detenção do Recife. Em 6 de outubro de 1930, nos primeiros dias da Revolução de 1930, os dois teriam sido assassinados. A versão oficial indicou suicídio. Ver – http://pb1.com.br/noticias_dentro.php?pt1=898
[3] No início de 1929 ainda estava em vigência a conhecida “política do café com leite”, em que políticos de Minas Gerais e de São Paulo se alternavam na presidência da república. O então Presidente Washington Luís, indicou o governador São Paulo, Júlio Prestes, como seu sucessor. Apenas três estados negaram o apoio a Prestes: Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Os três se uniram a políticos de oposição de diversos estados e formaram, em agosto de 1929, um grupo de oposição denominado Aliança Liberal. No dia 20 de setembro do mesmo ano foram anunciados os candidatos oposicionistas às eleições presidenciais. Getúlio Vargas seria candidato a Presidente do Brasil e João Pessoa seria o candidato a vice-presidente. Após perder as eleições, que foram realizadas em março de 1930, a Aliança Liberal alegou que a vitória de Prestes era decorrente de fraudes. Ver – http://pb1.com.br/noticias_dentro.php?pt1=898
[4] O empresário pernambucano Frederico João Lundgren (1879-1946) foi uma espécie de desbravador em seu tempo. Tratado como coronel, gerou 22 filhos, teve várias mulheres e se tornou uma espécie de lenda do comércio ao levar tecidos e outras mercadorias a dezenas de pequenas cidades do interior do país. Herdeiro de uma tecelagem, Lundgren teve, em 1908, a ideia de criar uma cadeia de varejo pela qual pudesse vender seus produtos. Era o começo das conhecidas Casas Pernambucanas. Ver – http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0726/noticias/a-sobrevivente-m0053283 e http://tokdehistoria.com.br/2014/05/12/oxente-hitler-arquivos-e-documentos-mostram-que-os-nazistas-estiveram-na-paraiba/
[5] Ver jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 4 de outubro de 1930, página 4.
[6] Ver jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 5 de outubro de 1930, na 1ª página. Apesar do Palácio do Catete ser a antiga residência dos Presidentes da República, quando tomou posse Washington Luís decidiu residir no Palácio da Guanabara.
[7] Ver – http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_de_1930
[8] Este hotel não existe mais, entretanto a estrutura ainda existe, está conservada e o local ainda é utilizado como hotel. Trata-se do Hotel Monte Alegre e fica localizado na mesma Rua Riachuelo, esquina com a Rua Monte Alegre.
[9] Este local fica bem próximo a atual sede da renomada Editora Folha Dirigida.
[10] Os jornais listam que além de sua aliança, de 200 mil réis em dinheiro, um relógio e abotoaduras de ouro, João Suassuna levava a licença para portar sua arma e alguns papéis. Entre estes uma carta fechada para a esposa.
[11] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 9 de outubro de 1930, 1ª página e o jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 10 de outubro de 1930, página 2. Desde os primeiros momentos as investigações ficaram a cargo do investigador Silvio Terra, figura lendária da polícia investigativa carioca, cujo nome atualmente batiza a Academia de Polícia Civil do Rio de Janeiro.
[12] Joaquim Souza Leão era um puro exemplo de um membro oriundo da mais alta elite agrária açucareira pernambucana. Era sobrinho de desembargador, de senador do Império, do Visconde de Campo Alegre e filho de Antônio de Souza Leão, rico fazendeiro pernambucano da região de Moreno e que havia recebido do Imperador Pedro II o título de Barão de Morenos. Um de seus filhos foi embaixador. Ver – http://morenoengenho.blogspot.com.br/
[13] Ver – http://issuu.com/auniao/docs/caderno_especial_parte_1
[14] Ver o jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, edição de 11 de outubro de 1930, página 2 e o jornal “Diário carioca”, Rio de Janeiro, edição de 7 de janeiro de 1933, 1ª página.
[15] Segundo Ariano Suassuna, na década de 1950, quando ele entrou na Faculdade de Direito de Recife, conheceu o filho do Joaquim Pessoa Cavalcante de Albuquerque, irmão de João Pessoa, que isentou o pai da morte de João Suassuna. Mas não o tio Aristarco Pessoa e nem a participação de Octacílio de Lucena Montenegro no crime. Ver – http://issuu.com/auniao/docs/caderno_especial_parte_1
[16] Sylvia Seraphin Thibau era uma jornalista, escritora e poetisa, era casada com o médico João Thibau Júnior e mãe de dois filhos. Sylvia foi acusada pelo jornal carioca “A Crítica” de ter traído o marido, mantendo um caso com o também médico Manuel Dias de Abreu, mais tarde inventor da abreugrafia. Irritada, ela foi à redação do jornal armada, para matar o editor, Mario Rodrigues, no dia 26 de novembro de 1929. Como Mário não estava no jornal, Sylvia acabou atirando no filho dele, o também jornalista Roberto. No local, assistindo ao crime, estava o irmão da vítima, Nelson Rodrigues, então com 17 anos. O processo criminal foi acompanhado por uma feroz campanha promovida pelo jornal, que chamava a ré de “literata do Mangue” e “cadela das pernas felpudas”. Seu julgamento foi o primeiro no Brasil a ser transmitido ao vivo pelo rádio. O advogado Clovis Dunshee de Abranches alegou que Sylvia havia se descontrolado por ter sido caluniada e conseguiu a sua absolvição. Ela suicidou-se em 1936, depois de abandonada por um tenente-aviador por quem havia se apaixonado. Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADlvia_Serafim_Thibau
[17] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 4 de novembro de 1930, página 9. Neste jornal temos uma longa declaração de Silvio Terra, se defendendo de acusações feitas por Octacílio de Lucena Montenegro através dos jornais. As acusações de Octávio apontam que este havia sido torturado pelos policiais para confessar sua participação na morte de Ariano Suassuna. Não encontrei a edição de jornal com a publicação de Octávio contra Silvio Terra. Mas encontrei a carta de defesa do investigador aos seus superiores e publicada nos jornais do Rio. Este investigador é muito claro, direto e contundente em suas afirmativas, além de negar veementemente o uso de tortura contra os detidos. O então coronel Bertoldo Klinger, líder revolucionário, elogiou o posicionamento do policial. Ver também “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 11 de julho de 1931, página 3.
[18] Miguel Alves estava incluso no crime previsto no Artigo 294, parágrafo 1º, com agravantes do Artigo 39, parágrafos 2º, 7º, 8º e 13º. Já Granjeiro era acusado nos mesmos artigos, acrescentando o artigo 18, parágrafo 3º. Lembrar que estas acusações faziam parte Código Penal anterior ao que atualmente está em vigência. Ver jornal “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de 7 de janeiro de 1933, 1ª página.
[19] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 11 de julho de 1931, página 3. Os jornais da época não informam quem, quando e onde ocorreram estes depoimentos que livraram Octacílio de Lucena Montenegro deste processo. Nem comentam nada mais sobre o sumiço dos autos e sequer é mais comentado por qualquer razão o nome do Joaquim de Souza Leão como presumidamente envolvido no crime. Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 11 de julho de 1931, página 3.
[20] Ver jornal “A Esquerda”, Rio de Janeiro, edição de 21 de setembro de 1931, página 4.
[21] Ver jornal “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, edição de 19 de agosto de 1931, página 2.
[22] Ver jornal “A Noite”, Rio de Janeiro, edição de 11 de setembro de 1931, página 3. Por mais estranha que esta história de ficar de joelhos diante do caixão de João Pessoa possa parecer, naquela época, naquelas circunstâncias, isso aconteceu de verdade. Na capital paraibana o nível de fanatismo em 1930 era tal, que se alguém tocasse em um local público uma certa música criada para homenagear o morto ilustre, e alguém gritasse um sonoro “De joelhos!”, aí de quem não cumprisse a ordem. Ou era surrado, ou preso. 
[23] Ver jornal “Diário Carioca”, Rio de Janeiro, edição de 19 de novembro de 1931, página 3. É interessante comentar sobre o juiz Nelson Hungria Hoffbauer. Este nasceu em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1891, iniciou sua vida pública como promotor de Rio Pomba, em seu estado natal. Nomeado juiz em 1924, foi magistrado por 46 anos, tendo sido nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal em 1951, do qual chegou à presidência e se aposentou em 1961. Hungria é tido como um dos luminares de nossa cultura jurídico-penal, onde deixou escrito 17 obras e 150 monografias. Foi considerado o líder intelectual da redação do Código Penal de 1940, além de ter participado da elaboração do Código de Processo Penal, da Lei de Contravenções Penais e ainda da Lei de Economia Popular. Seus Comentários ao Código Penal (8 volumes) influenciaram gerações de juristas brasileiros e constituíram referência obrigatória para a compreensão de nosso sistema jurídico penal. Ver –  http://www.memorial.mppr.mp.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=114
[24] A Revolta dos 18 do Forte de Copacabana foi uma revolta tenentista ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em 5 de julho de 1922. Foi a primeira revolta tenentista da República Velha. Teve a participação de 17 militares e um civil. Suas causas principais estão no descontentamento dos tenentes com o monopólio político do poder no Brasil por parte das oligarquias (principalmente ricos fazendeiros) de Minas Gerais e São Paulo. Embora o movimento tivesse sido planejado em várias unidades militares, somente o Forte de Copacabana e a Escola Militar se levantaram no dia 5 de julho de 1922. O forte foi bombardeado e a rendição dos rebeldes foi exigida.  O tenente Siqueira Campos e um grupo de militares rebeldes pegaram armas e marcharam pelas ruas em direção ao Palácio do Catete (sede do governo federal na época). Durante a marcha alguns militares desistiram, ficando apenas 17 que receberam o apoio na rua de um civil, totalizando 18. Os rebeldes foram cercados pela tropa do Governo Federal. Após forte tiroteio em frente ao posto 3 da praia de Copacabana, somente Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram e foram presos. Os outros dezesseis integrantes do movimento foram mortos no combate.
[25] Regicídio é o assassinato de um rei, seu consorte, de um príncipe herdeiro ou de outras formas de regentes, como presidentes e primeiro ministros. Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Regic%C3%ADdio
[26] Ver o periódico “Diário de Notícias”, Rio de Janeiro, nas edições de 7 e 8 de janeiro de 1933, sempre nas 1ª páginas. Igualmente ver o jornal “Diário Carioca”, Rio de Janeiro, edição de 7 de janeiro de 1933, 1ª e 5º páginas.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Os Mártires


O culto
Castelo Keulen 1645Em 06 de dezembro de 2006, a então governadora do Estado do Rio Grande do Norte, Wilma de Faria, sancionava a lei que declara feriado Estadual o dia 03 de outubro, para culto público e oficial dos mártires de Cunhaú e Uruaçu. Desde o ocorrido haviam passados 361 anos, mas apenas 6 da beatificação do Papa João Paulo II.
O evento cultuado se deu em 1645, quando a capitania do Rio Grande era um domínio holandês periférico. Enquanto em Pernambuco desabrochava a cidade Maurícia, do Conde Renascentista, com suas torres e sua atmosfera cosmopolita, nós permanecíamos, na arquitetura e na mentalidade, uma decadente aldeia portuguesa com status de cidade. O domínio holandês não era diverso do português, continuávamos isolados. Mera Fortaleza permeada por casebres amedrontados.
Antes de outubro, ainda em julho, ocorria dentro da capela do engenho Cunhaú, o massacre que vitimara o padre André de Soveral juntamente com 29 fiéis, em plena missa. O engenho Cunhaú era o centro econômico da capitania, residia ali seu maior núcleo populacional, apesar disso, era modesto em relação aos grandes engenhos de Pernambuco. Havia uma considerável presença portuguesa na região do engenho, tornando-o alvo prioritário para tapuias e brasilianos sedentos por sangue lusitano.
Capela do engenho CunhaúAo serem informados que portugueses em Pernambuco tinham-se rebelado, vingando-se dos indígenas que se aliaram aos holandeses, tapuias e potiguaras marcharam para Cunhaú e massacraram praticamente todos os portugueses que por lá haviam, exceto três que fugiram pelo telhado.
Segundo Diogo Lopes Santiago, Jererera, líder dos tapuias e filho do lendário Rei Janduí, foi o primeiro a iniciar o massacre. Há elementos miraculosos que narram que os braços dos indígenas que assassinaram o padre Soveral, após este tê-los ameaçado com maldições, atrofiaram e foram despedaçados pelos próprios indígenas vitimados pela raiva.
O imaginário que se criou em torno dos mártires de Cunhaú se originou, em parte, pelo panfleto feito por Lopo Curado Garro, que mescla o relato com elementos fantásticos: como uma suposta música que ascendia para o alto, dando “certo pressagio que foram os Anjos que acompanhavam as almas destes mártires para o Céu”. Assim como uma mancha de sangue fresco que apareceu na sepultura do padre Vigário Ambrósio Ferro, quinze dias após sua morte, que segundo o panfleto dava “mostras bastantes, que o tal [padre] brada ao Céu justiça”. Atestado também por Lopes Santiago, que afirma que após três meses do ocorrido o sangue derramado pelas vítimas estava “tão vivo e fresco como se naquela hora fora derramado”.
Após os massacres ocorridos no engenho Cunhaú e, posteriormente, na casa forte de João Lostão Navarro, os colonos portugueses da Capitania decidiram refugiar-se em um sítio localizado na beira da Lagoa de Uruaçu, atual município de São Gonçalo do Amarante, onde ergueram paliçadas e estocaram mantimentos.
Mulher tapuia retratada por Eckhout como selvagem, carregando parte de corposApós sitiar as paliçadas por 16 dias e noites os holandeses, juntamente com tapuias e potiguaras, resolveram atacar, mas foram repelidos, resultando na morte de vinte holandeses contra nenhuma baixa portuguesa. Em um segundo ataque, dessa vez com dois canhões, os portugueses capitularam. Tendo sido massacrados posteriormente enquanto eram levados para o porto de Uruaçu. O uso de emboscadas era parte fundamental da estratégia militar que ficou conhecida como Guerra Brasílica.
Parte considerável das fontes primárias, que são escassas, atribui o ocorrido à maldade desmedida e diabólica dos indígenas e batavos, levando para o campo moral e religioso um conflito de origem muito mais complexa. A forma como os tapuias guerreavam foi intencionalmente associada, pelas autoridades locais, à forças demoníacas e falta de humanidade, assim procurava-se legitimar a guerra. O relato de alguns cronistas era parte integrante desse empreendimento.
A guerra
Os tapuias formavam um conglomerado nada homogêneo, composto por diferentes etnias, culturas e costumes. A denominação Tapuia foi arbitrariamente imposta a todos as tribos que não falavam Tupi. O Tapuia era antes de tudo um anti-tupi.
Os holandeses estabeleceram forte relação com os tapuias, principalmente com os Janduís, explorando o interior da Capitania, ávidos pela esperança de encontrar prata e minerais preciosos. Quando os batavos foram expulsos em 1654, as veredas que se embrenhavam sertão adentro, foram utilizadas pelos colonos para colonizar  o interior.
5 BEBELAOs colonos que adentravam cada vez mais no sertão potiguar precisavam de mão-de-obra para agricultura e terras para a pecuária. Sem recursos para comprar escravos negros no mercado de Pernambuco, acabavam por capturar índios tapuias no interior para desempenhar essa função, apropriando-se de suas terras.  A legislação vigente proibia a escravidão indígena com uma ressalva: caso o índio fosse capturado em uma guerra justa.
Para as autoridades coloniais, desde sempre, a guerra contra os tapuias era considerada justa. Provocava-se intencionalmente um conflito apenas para suprir a demanda por mão-de-obra de forma legal. A escravidão indígena tornou-se assim um negocio lucrativo.
Os tapuias eram o maior empecilho para a emergente economia pastoril que avança sertão adentro.  O governador geral Matias da Cunha convocou o capitão Domingos Jorge Velho, o mesmo bandeirante que destruiu o Quilombo dos Palmares, para que este partisse “com todas as forças que tiver sobre aquele bárbaro, e fazer-lhe todo o dano que puder. Espero que não só terão todas as glórias de degolarem os bárbaros, mas a utilidade dos que aprisionarem, porque por a guerra ser justa resolvi em Conselho de Estado, que para isso se fez, que fossem cativos todos os Bárbaros que nela se aprisionassem”.
Tarairiús dançandoAcontece que os tapuias não estavam dispostos a renunciar suas terras e servir como escravos da forma como esperavam os colonos, para sua surpresa as tribos tapuias se uniram em uma espécie de confederação bárbara, deflagrando na capitania do Rio Grande, em 1687, uma guerra que se alastraria pelo Nordeste brasileiro, de Alagoas ao Ceará, até 1700, espalhando terror e destruição pelo sertão nordestino. Fato que ficou conhecido como Guerra dos Bárbaros.
Entre as tribos Tarairiús, a mais temida pelos portugueses da Capitania eram os Janduís. Após assimilarem as táticas e os equipamentos de guerra dos holandeses converteram-se em exímios atiradores e cavaleiros. A rainha, em carta ao governador de Pernambuco, esboça preocupação a respeito dos Janduís: “… por terem já muita quantia de cavalos em que se exercitam como doutrinação que lhes deixaram os holandeses”.
Tapuias armados e treinados pelos holandesesO fidalgo, José Lopes Ulhoa, escreve ao rei de Portugal “Estes Tapuyos a que chamam Jandoins são muitos diferentes dos outros porque não tem aldeias nem parte certa em que vivam e sempre andam volantes sustentando-se algumas vezes dos frutos da terra e caça que matam e outras de algum gado que lhes dão os vaqueiros ou eles lhes roubam [...] Querer castigar estes homens por força das Armas me parece quase impossível e muito inconveniente [...] os não poderão alcançar pela ligeireza com que este gentio marcha e pouco peso das armas que levam sem lhes ser necessário carregar os mantimentos com que se hão de sustentar”.
Os Janduís tornaram-se peritos em cavalos, superando em alguns casos os próprios vaqueiros, ameaçando a expansão dos pastos sertão adentro. Como relata o conde Miranda Andrada à rainha de Portugal, em 1659 “e hoje se vão fazendo poderosos, por terem muita criação de éguas, e com qualquer disciplina nos poderão fazer muito dano”.
Várias nações indígenas adquiriam armas de fogo através de transações com piratas estrangeiros. Como afirma Matias da Cunha, em carta de 1688 ao bispo governador de Pernambuco: “Uns afirmam que os navios de Piratas que por vezes entravam o Rio Açu (navegável de embarcações maiores por distância de oito léguas em cujas ribeiras havia de uma e outra parte muitos currais de gado) comerciando com tapuias Janduís lhe deram as armas e munições com que pelejam: e outros, que tendo o mesmo comércio com eles o Capitão-Mor da Fortaleza do Ceará, lhe dera pólvora, e munições que ainda lhe duram.”
Tarairiús comercializando com holandeses. Em julho de 1694, Morais Navarro em carta ao rei, fala que esses tapuias: “faziam pazes com qualquer navio estrangeiro que viera aquela costa, pois tanto suspiram pelos holandeses (…) só eles bastavam para nos conquistarem por terra pois são tantos como as folhas, e no valor não lhes excedemos mais que na desigualdade das armas”.
Os colonos, assustados pelos roubos e massacres, debandaram-se para as capitanias vizinhas, fazendo com que os tapuias dominassem um vasto território da Capitania. Em Natal a pena para quem fugisse era a prisão e o confisco dos bens. Os que restaram erguiam casas fortes improvisadas com paliçadas para defender-se. O capitão-mor Pascoal Gonçalves emitia apelos desesperados aos governos da Paraíba, Pernambuco e Bahia. E mesmo com reforços vindos da Paraíba e Pernambuco, os tapuias já se aproximavam de Ceará-Mirim, a apenas cinco léguas da capital. Nesse momento do conflito, a Capitania estava a um passo de ser conquistada pelos indígenas.
Em carta do Senado da Câmara de Natal, dirigida ao Rei, contabiliza-se um prejuízo de duzentos colonos mortos e trinta mil cabeças de gado, além de mil cavalos. O prejuízo econômico para a Capitania foi imensurável.
Os mártires
Ìndio TarairiúNo sertão potiguar, haviam dois grupos etnográficos predominantes, os Tarairiús e os Cariris, ambos eram denominados de tapuias. O nome tarairú deriva do peixe taraíra, conhecido como traíra. Os Tarairiús habitavam os sertões há séculos, senão milênios, já os Cariris habitavam inicialmente o litoral, tendo sido expulsos pelos Tupiniquins e Tupinambás, refugiando-se no interior. A expressão “caboré”, utilizada pelos natalenses, denominava uma tribo Cariri. Os Caborés, que habitavam originalmente a região de Apodi, foram aldeados, entre outras localidades, em Macaíba, no engenho Ferreiro Torto, a 18 km da capital.
A Capitania do Rio Grande abrigava a maior concentração de Tarairiús da colônia, tendo como epicentro a região de Açu, onde viva a tribo dos Janduís. De acordo com Câmara Cascudo, o nome Janduí – que em tupi significa aranha pequena – teria derivado da palavra Nanduí, que significa ema pequena. Durante a invasão holandesa à Capitania do Rio Grande, época em que os Janduís eram os principais aliados dos holandeses, o brasão da Capitania era representado por uma Ema.
Janduí tinha 50 mulheres e 70 filhos, viveu mais de 100 anos. Dificilmente faziam casas, seu acampamento sempre era transitório, sendo queimado após abandonado. Dormiam ao relento, na terra, sem nada por baixo do corpo. Não andavam a noite devido ao perigo das cobras. Seu nomadismo fazia com que percorressem grandes distâncias, difundindo sua influência espacial por grande parte do nordeste brasileiro.
O filho de Janduí, Canindé, após a expulsão dos holandeses e um risco iminente de extinção de sua tribo por parte dos portugueses, rende-se e assina uma trégua. Diante de uma situação de extermínio, os Janduís souberam com muita destreza garantir diretamente com a Coroa Portuguesa um acordo de paz único na história brasileira, obtendo o reconhecimento de reino autônomo, vassalos diretos do próprio El Rei.
Ao Rei interessava manter sob controle essa lendária e temida casta de guerreiros que podia ser-lhe útil contra outros índios. Utilizando uma estratégia que fora bem sucedida na África, de acirrar conflitos entre grupos indígenas locais.
Aldeamento TapuiaEntretanto, o acordo de paz assinado diretamente com Portugal não foi bem quisto pelos colonos.  As autoridades coloniais portuguesas na Capitania durante o século XVII tinham como principal projeto político o extermínio dos tapuias. Alguns tendiam para o aldeamento como o governador Bernardo Vieira de Melo, outros para o conflito armado como o comandante do terço paulista Manuel Navarro.
A partir de então, a guerra passaria a ser de extermínio. Não importa mais se iriam ser mortos, escravizados, ou gerariam caboclos, os tapuias deveriam desaparecer. Sentimento compartilhado por autoridades coloniais e religiosas. O frei Manoel da Ressureição, por exemplo, contra as ordens do Rei, coagia os colonos a não “esperar defensivamente nos Arraias“, mas sim, seguir os indígenas “até lhes queimarem e destruírem as Aldeias, e eles ficarem totalmente debelados, e resultar da sua extinção, não só a memória, e temor do seu castigo, mas a tranquilidade, e segurança com que Sua Majestade quer que vivam, e se conservem seus vassalos, como por tão duplicadas ordens tem recomendado a este Governo”.
Em carta de janeiro de 1699, D. João de Lencastro, clama ao capitão-mor da capitania, Bernardo Vieirapara que este conceda “ao Mestre de Campo todos os que lhe pedir para a dita conquista, em que Vossa Mercê há de por todas as forças, para que aqueles Bárbaros fiquem extintos de todo.” O resultado não foi nenhuma surpresa, os que não foram mortos foram aldeados, como os Ariús, uma tribo Tarairiú, perseguidos sertão adentro, foram reduzidos em um aldeamento chamado Capina Grande. Para realizar o empreendimento contrataram os melhores mercenários que haviam na colônia, os paulistas.
albert-eckhout-9Os Janduís e demais Tarairiús remanescentes foram pacificados e aldeados a centenas de léguas de seu território original. Muitos foram forçados para o litoral, como os Canindés, que foram aldeados em São João da Ribeira do Cunhaú, não muito distante de onde ocorreu o primeiro massacre. Seus traços ainda são evidentes na população de Canguaretama e cercanias, sua marca foi mais persistente do que o sangue santo na capela. O homem do sertão dilui-se em homem mar, homem cana, homem útil. Jangadeiro, olhar sereno e mão firme não mais para projetar a lança, mas sim, para arquear a tarrafa sob o cardume de tainhas, mão forte não mais para golpear sua clava, mas sim, para cortar a cana que alimenta as usinas.
Na missa de beatificação, o então Papa e futuro Santo João Paulo II, nos lembrou que os mártires da Capela de Cunhaú pertenciam a uma geração de mártires que regaram o solo para a geração de novos fiéis. O mártir é aquele que tem fé, aquele que acredita. Morre pelo que acredita porque não poderia agir de outro modo. Em todo o sertão os Tarairiús morreram. Secos pela luta e pelo sol podem até não ter regado o solo em que tombaram, mas regaram a alma e o corpo do nordestino com força e destreza. Sua morte gerou fiéis, cangaceiros, jangunços, profetas, todos igualmente crentes. Sua morte gerou Canudos.
Na aridez da caatinga, no rastro dos Tarairiús, surge à civilização do couro, com ela um novo homem, meio tapuia, meio negro, meio beduíno, completamente nordestino. Esse homem, posteriormente, viria a construir e povoar todo um país.


FONTE: http://tuliomadson.com/2014/01/10/os-martires/